Cultivo de soja avança e circunda quatro em cada cinco terras indígenas de Roraima

A expansão da soja em Roraima já altera de forma visível a paisagem do estado e pressiona terras indígenas. Pesquisa do Instituto Serrapilheira identificou plantações no entorno de 26 das 33 terras indígenas, sendo a maioria formada por pequenas áreas isoladas. Essas características favorecem o avanço das lavouras sobre regiões antes preservadas.

Na Serra da Moça, onde fica a Comunidade Morcego, moradores relatam mudanças contínuas desde o início da produção agrícola nas proximidades, em 2018. Estradas de chão que antes cortavam áreas de vegetação nativa hoje passam por extensas plantações. A comunidade, com 73 famílias, convive com barulho constante de tratores e colheitadeiras, além de poeira e odores associados ao uso de agrotóxicos.

O líder indígena Jabson Silva lembra que um avião agrícola chegou a sobrevoar casas durante aplicação de defensivos, procedimento proibido por normas federais quando há moradias próximas. Segundo ele, moradores apresentaram coceiras, irritação nos olhos e dificuldades respiratórias.

A área plantada com soja no estado aumentou de 18.725 hectares em 2017 para 117.215 hectares em 2024. A produção cresceu de forma proporcional, e a soja se tornou o principal item exportado, segundo dados do governo federal.

O levantamento identificou ainda que terras indígenas maiores e mais isoladas preservam melhor sua biodiversidade. Nas áreas estudadas, foram registradas 1.930 espécies, incluindo anfíbios, aves, mamíferos e árvores. A proximidade com lavouras reduziu especialmente a presença de espécies mais sensíveis a alterações ambientais.

O pesquisador Bruno Sarkis aponta que o crescimento da atividade agrícola está ligado a mudanças recentes na legislação estadual, que flexibilizaram regras para ocupação de terras e diminuíram exigências ambientais. Ele afirma que essas medidas estimularam produtores de outros estados a investir em Roraima.

O governo estadual foi procurado, mas não enviou resposta.

Com informações do Brasil de Fato e Samantha Rufyno/Repórter Brasil