Casal de pastores é indiciado por associação criminosa, estelionato e apropriação de bens de idosa; prejuízo chega a R$ 500 mil
Cinco integrantes de uma igreja evangélica foram indiciados por associação criminosa, estelionato e apropriação de bens de uma mulher de 66 anos. A investigação envolveu uma série de medidas cautelares, incluindo prisões, busca domiciliar, apreensão de veículos e quebra de sigilo bancário. As informações foram divulgadas pela Polícia Civil nesta quinta-feira (3).
De acordo com o titular da Delegacia de Proteção ao Idoso e à Pessoa com Deficiência (DPIPCD), Franco Ghiggi, responsável pela conclusão do caso, a apuração teve início após denúncia feita por um dos filhos da vítima, a idosa Severina Lima Sobral da Cruz, que morreu em novembro de 2020. No entanto, antes de falecer, a mulher teve seus bens e finanças dilapidados.
As investigações levaram o delegado a indiciar um pastor de 56 anos e a mulher dele, também pastora, de 55, e o tesoureiro da igreja e dois missionários, respectivamente de 68, 51 e 24 anos.
O esquema, segundo o delegado, causou um prejuízo de aproximadamente R$ 500 mil.
‘Contexto religioso’
A idosa, que sofria de diabetes e pressão alta, além de problemas renais, foi levada a um contexto religioso em que começou a frequentar uma igreja, pastoreada pelo casal.
Ela foi pressionada a realizar transações financeiras, inclusive a aquisição de veículos, passagens aéreas e outros bens de alto valor, usando seu nome.
Nos anos de convivência, foram adquiridos quatro veículos, financiados em nome da vítima, mas que eram utilizados exclusivamente pelo casal de pastores: um Siena, um Corolla, uma Hilux e um Ford Focus.
“No entanto, ficou constatado que, embora os veículos estivessem documentados no nome da vítima, um deles foi transferido para o tesoureiro da igreja, sem que a idosa recebesse qualquer valor. Este veículo foi, na prática, utilizado pelo casal de pastores e seus familiares, o que configurou uma tentativa de esconder a origem dos bens”, informou.
Além disso, foi apurado que a vítima arcou com a compra de passagens aéreas para os pastores e seus familiares, utilizando seu cartão de crédito. Em algumas ocasiões, ela pagou pelos bilhetes para evitar que seu nome ficasse com restrição, causando-lhe um prejuízo financeiro.
“A fraude foi evidenciada por vouchers de viagens que mostraram o uso do cartão de crédito da idosa para a compra das passagens. A investigação também trouxe à tona uma dívida deixada em um de seus cartões bancários, que foi confessada pela pastora em uma conversa por WhatsApp”, contou o delegado.
Embora reconhecida, a dívida não foi suficiente para caracterizar estelionato, pois não se comprovou que a vítima tenha arcado com o pagamento da fatura, dado que ela morreu antes.
Outra situação investigada envolveu um suposto esquema na compra de lingeries, quando a vítima investiu em mercadorias com a promessa de divisão de lucros entre ela e a pastora. Embora esta tenha confirmado a parceria, não foram coletados elementos suficientes para comprovar que a vítima teve prejuízo financeiro com esse investimento.
Curandeirismo
Ainda segundo o delegado, o crime de curandeirismo também foi considerado, pois os pastores foram acusados de administrar substâncias em garrafas que seriam ministradas à vítima, as conhecidas “garrafadas”, sem a devida formação acadêmica ou licença para atuar na área de saúde.
Além dessas fraudes financeiras e de saúde, foi identificado um esquema de associação criminosa envolvendo os pastores, o tesoureiro da igreja e outros suspeitos. Os pastores e dois membros da igreja tentaram garantir que os crimes cometidos permanecessem ocultos. Um deles entrou em contato com o marido da vítima, pedindo que ele se deslocasse para Boa Vista para ajudar a elaborar uma escritura que transferiria o veículo para o nome de uma terceira pessoa. O outro integrante da igreja, por sua vez, foi responsável por receber o marido da vítima na frente do cartório e auxiliá-lo a formalizar o documento.
De acordo com o delegado, as provas reunidas e a atuação coordenada entre pastores, tesoureiro e missionários caracterizam uma rede de crimes, incluindo estelionato, apropriação de bens de pessoa idosa e tentativa de favorecimento ilícito.
A investigação também apurou a apropriação de veículos comprados pela vítima, incluindo um carro Siena, que foi transferido pelo pastor, e outras aquisições de automóveis, como uma Hilux e um Ford Focus, cujas documentações foram alteradas, conforme relatos da família da vítima.
“O inquérito revelou que valores foram transferidos pela idosa, sob alegação de necessidade de apoio à igreja e à família dos pastores, e que havia uma forte influência sobre ela, que passou a fazer saques e transferências bancárias significativas”, informou.
O inquérito policial instaurado foi encerrado na Polícia Civil com o indiciamento dos acusados no crime e encaminhado ao Ministério Público de Roraima (MPRR) e à Justiça para a persecução penal.