Mais de um terço das queimadas do Brasil em março ocorreu em Roraima, aponta Inpe

Mais de um terço das queimadas registradas no Brasil em março ocorreu em Roraima, que contabilizou 602 focos de incêndio no período, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Bahia e Mato Grosso aparecem em seguida, com 15% e 8% dos registros.

O crescimento dos focos já vinha sendo observado ao longo do ano. Em janeiro, foram 219 registros. Em fevereiro, o número subiu para 493, superando a média de 423 para o período, com aumento de 15,5%.

O período mais crítico teve início entre o fim de fevereiro e meados de março, quando os incêndios avançaram sobre áreas de lavrado. Também atingiram florestas em zonas urbanas e rurais.

A situação levou o governo estadual a suspender o calendário de queimadas controladas e a prever multa para quem iniciar fogo sem autorização da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh).

Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR), Anderson Carvalho de Matos, já foram registrados “1.600 focos concentrados especialmente nos municípios de Caracaraí e Rorainópolis, ao sul, e Normandia, ao norte”.

Ele afirma que os “incêndios são de origem humana, criminosa e acidental”. Nas áreas urbanas, o objetivo é “limpar terrenos baldios”, enquanto no meio rural o fogo é usado para preparar áreas de plantio.

O comandante destaca que o período seco, de outubro a março, está mais quente e seco neste ano. “Isso cria o cenário ideal para as queimadas: temperaturas elevadas e desidratação da vegetação”, afirma.

A Operação Sem Fogo foi iniciada em novembro de 2025 e reúne Corpo de Bombeiros, brigadistas e integrantes da Operação Guardiões/Protetores dos Biomas.

Inicialmente, foram realizadas 6.000 ações preventivas em 13 municípios. “Com o avanço das queimadas, focamos no combate aos incêndios criminosos, inclusive dando voz de prisão aos autores. São 350 bombeiros e 148 brigadistas atuando no combate aos incêndios”, diz.

Entre o fim de março e o início de abril, chuvas começaram a atingir o estado. Segundo o meteorologista Ramon Alves, “o inverno [amazônico, marcado por chuvas] começa neste início de abril, como previsto, o que deve reduzir os focos de incêndio”.

Moradores relatam impactos diretos. Em Boa Vista, Suerlene de Abreu Fuhrmann descreveu o avanço das chamas: “Este fogo está duas casas depois da sua.” “Dava a impressão de que as casas iam ser incendiadas. As crianças gritavam, as pessoas gritavam, todo mundo com medo”.

O pesquisador Haron Xaud afirma que as áreas de savana e lavrado foram as mais atingidas. “A cidade [Boa Vista] foi cercada de fogo, são muitos focos mesmo”, destaca.

A fumaça também afeta a saúde. Amanda Souza relata a presença constante de fuligem, enquanto Angela Silva Pinheiro descreve: “minha casa ficou totalmente cinza. Era como se a gente estivesse dentro da fumaça”.

Segundo a médica Mayara Floss, partículas finas (PM2,5) são as mais nocivas. “Elas conseguem entrar na corrente sanguínea e causar diversos problemas de saúde”, afirma.

Com informações da Folha de S. Paulo